Graforréia Xilarmônica - 3 estrelas
Ao Vivo
Instituição gaúcha em registro certeiro
Se hoje em dia o termo rock gaúcho virou definição de estilo musical, abraçado claramente por nomes locais – de Cachorro Grande a Bidê ou Balde – e até extrapolando as fronteiras do estado - ou alguém vai dizer que bandas como o Rock Rocket não fazem rock gaúcho? -, boa parte da culpa pode ser creditada à Graforréia Xilarmônica. Isso não quer dizer, entretanto, que muita gente tenha entendido a mistura chinela de jovem guarda, idiossincrasias regionais, elementos vanguardistas e rock dos anos 60 promovida pela banda em sua tortuosa carreira, que completa 20 anos em 2007. Para este Ao Vivo, gravado em 2005 em Porto Alegre, a dupla de produtores cariocas Kassin e Berna Ceppas optou, como convém, por um registro corretamente cru da apresentação. Não espere, portanto, execuções impecáveis, vocais límpidos, afinação e aquela precisão anticéptica dos discos ao vivo que vemos por aí. E isso só ajuda a reafirmar a força das composições da Graforréia, que aqui conta em duas músicas com Marcelo Birck, membro da formação original e co-autor de boa parte do repertório do grupo. Entre semi-hits de uma realidade paralela – bem mais divertida que a nossa, por sinal – e canções popularizadas por outros artistas ("Empregada" por Wander Wildner; "Nunca Diga" e "Eu" pelo Pato Fu), o disco aparece como lembrete do quanto uma banda como a Graforréia ainda pode soar extremamente necessária dentro do nosso cenário musical.
todos sabem quem leva a melhor
O Guardian publicou recentemente esta matéria, com músicos questionando vacas sagradas como Pet Sounds, Nevermind e até o Velvet Underground and Nico. A matéria em si já é bem legal, alguns argumentos são bastante reais, mas tem um lance no trecho em que o cara do Battles questiona o Is This It que é uma coisa que penso há um bom tempo:
"The Strokes have, basically, been responsible for five or six years of a new form of hair metal, in the guise of something more tasteful. Their music is post-9/11 party music because it came out that week and everybody wanted to dance. They're seen as the rebirth of rock in the UK - but it's a very conservative, old-fashioned idea of rock for the 21st century."
Eu acredito piamente que os indies 00 sejam tão ou mais musicalmente caretas quanto o fã de axé, classic rock ou MPB. Se bem que não são só os dos 00. Indie sempre foi careta. Então eles não são responsáveis pela caretice indie. Mas sim pelo surgimento de mais uma geração de gente careta com roupinha moderna. (... continua em breve)
Tem aqui pra ouvir nossa versão de Slow Jam, gravada ao vivo.

"open field is the best thing ive ever done in my life"
Isso foi o recado que o Ed, gringo gente fina iluminador das tours do CSS, deixou no meu Flickr. O show de ontem foi um lance mágico. Tá certo, 98% do público não entendeu nada. Dava pra ver a interrogação na cara das pessoas. Neguinho fica intrigado mesmo: "um bando de gente berrando músicas no palco... o que isso tem de especial? por que eles tão lá em cima e eu aqui em baixo? por que, com tanto artista 'bom' no país, o Kieran foi escolher logo esses idiotas mal ensaiados?". Tudo tem resposta, ou não. Logo no primeiro encontro (foto acima), quando estávamos só eu, Kieran e o Du, já deu pra sacar por que ele escolheu a gente: ele é um Open Field de coração. A resposta dele pra essa pergunta em uma entrevista foi algo como "o que poderia ser melhor que tocar com um monte de amigos se divertindo junto?". Kieran e outros gringos - Ed e Tom, empresário do Four Tet, que se juntaram ao coral; o pessoal da organização do TrocaBrahma, que tava eufórico com a apresentação - sacaram o espírito muito mais que a blaselandia que lotou o Studio SP. Não é muito comum ver gente deixando o pudor de lado pra celebrar, sorrir, cantar a plenos pulmões, espantar o carvão e, principalmente, se divertir muito. É estranho, gera constrangimento. Mas nós estamos aí justamente pra isso. Quem tiver na nossa que venha junto. Te garanto, é muito mais legal. E o Reino Unido que nos aguarde.
ps Não preciso dizer que o show do Four Tet foi matador. Kieran é mestre, muito mestre.
Os sorrisos felizes se multiplicaram no palco. Na platéia nem tanto. Mais fotos em www.flickr.com/photos/trocabrahma