27 de mar de 2007

DJ americano rebola com "porcaria" do funk carioca

Folha de São Paulo - 16/04/2005

Chega ao Brasil no mês que vem o primeiro trabalho do produtor e DJ americano Diplo. Intitulado "Florida", em homenagem ao Estado onde ele passou boa parte da infância e da adolescência, será lançado pelo selo paulistano Slag Records. Nele, Wesley Pentz -seu nome de batismo- joga segundo as regras das colagens de batidas de hip hop downtempo estabelecidas pelo DJ Shadow, com quem tem sido comparado.
Introspectivo, de ares quase cinematográficos, o álbum cravou um lugar em muitas listas de melhores do ano passado em revistas e jornais estrangeiros. Uma faixa, porém, destoa do resto do CD e deve chamar a atenção dos brasileiros -que podem vê-lo ao vivo no Tim Festival deste ano, evento para o qual já foi sondado.
"Diplo Rhythm" une vocais do jamaicano Vybz Cartel, da britânica Sandra Melody e dos funkeiros Pantera e os Danadinhos, que entoam versos como "nós transamos todo dia, parecemos viciados/de manhã, de tarde, à noite, o lance é namorar pelado".
"Os brasileiros que encontro nos EUA dizem que o funk é a maior porcaria que já saiu do país", fala, direto de seu estúdio na Filadélfia, no dia seguinte a uma apresentação com a namorada M.I.A. "As pessoas aqui pensam o mesmo do hip hop dirty south. Eu acho demais. Vou atrás de coisas com energia. Se fosse brasileiro, teria orgulho do funk."
Não por acaso, tanto o dirty south (o rap malemolente do sudeste americano) quanto o "baile funk" são descendentes diretos do Miami Bass, que serviu como trilha para seus anos na Flórida.
O primeiro contato com o pancadão veio no ano passado através de amigas argentinas. "Elas chegaram com uma fita de funk. Eram umas músicas mais antigas, mas eu fiquei louco com aquilo. Para mim era como punk rock."
Gostou tanto que decidiu vir ao Brasil. Duas vezes. Na primeira, perdeu um bom tempo até descobrir que não era nas lojas de discos que deveria procurar o estilo. "Era como se aquilo não existisse. Eu ficava pensando se essa música era underground a ponto de não ser encontrada em nenhuma loja. Mas em qualquer táxi só tocava funk. Então vi que o caminho eram os camelôs."
Já enturmado, quando vem ao país, freqüenta bailes de periferia com Marlboro e filmou numa favela o clipe de "Diplo Rhythm".
Em "Florida", Diplo mostra seu lado mais tranqüilo, mas é atuando como produtor que se tornou um dos nomes mais requisitados do cenário eletrônico atual, justamente por injetar elementos "rebolativos" no trabalho de outros artistas. Entre suas colaborações, estão parcerias com Prefuse 73, Le Tigre e Kano, promessa da fervilhante cena grime (o novo hip hop eletrônico britânico).
Nenhuma delas, porém, tem sido comentada como "Bucky Gone Down", faixa de "Arular", álbum de estréia de M.I.A. A cantora cingalesa radicada em Londres recita letras políticas -seu pai foi guerrilheiro no Sri Lanka- em cima de bases explosivas, fundindo hip hop, dancehall, grime, ritmos asiáticos e funk carioca.
Quando discoteca, Diplo joga para a torcida. Começou a forjar seu estilo quando tinha 16 anos, tocando Led Zeppelin, Beastie Boys e James Brown para famílias de classe média e em um hotel em Daytona Beach, cidade próxima ao local onde seus pais possuíam uma loja de iscas. Já formado na faculdade de cinema e trabalhando como professor, cuidava da trilha sonora dos bailes da escola. "Eu toco coisas que a molecada gosta: house mais louco, dirty south, hip hop. Eles amam."
Passou a ser convidado para tocar em outras escolas. "Hoje em dia, às vezes me chamam para discotecar por uma grana inacreditável, coisa que eu nunca imaginaria ganhar. Eu fazia essas festas por US$ 50 [R$ 129]. Fazia de graça, se fosse o caso. Quando os professores se divertiam, chegavam a pagar US$ 75 [R$ 193]."
Decidido a viver de música, alugou um clube na Filadélfia com o parceiro Low Budget e inventou a festa semanal Hollertronix, em que acrescentou uma boa dose de pop dos anos 80 ao som que tocava nas festinhas escolares. Resultado: foi eleita uma das melhores de 2003 pelo "New York Times".
Uma busca pelos programas de compartilhamento de arquivos pode trazer como resultado algumas das melhores provas das habilidades de Diplo com os toca-discos: as mixtapes "Piracy Funds Terrorism - Vol.1" (funk carioca, M.I.A., anos 80), "Hollertronix T5 Soul Sessions" (anos 80) e "Favela on Blast" (funk carioca).

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