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8 de fev. de 2008

rolling stone - dezembro/07

Cansei de Ser Sexy
Planeta Terra
quatro estrelas

O bom filho...


Antes de se lançar na longa aventura no exterior, um dos grandes charmes do Cansei de Ser Sexy era a dificuldade em traduzir seu potencial em música ao vivo, não só pela famosa inabilidade com os instrumentos, mas também pela incapacidade em controlar o caos criativo pelo qual era regido. A instabilidade era ingrediente-chave das apresentações, geralmente experiências bastante divertidas. O Cansei do Planeta Terra 2007 é outro: uma banda segura e eficiente, bem-iluminada e bem-tratada, mas, nem por isso, menos interessante. As boas composições de Adriano Cintra e companhia ganham inesperados novos contornos ao vivo, enquanto o carisma de Lovefoxxx e o espírito festeiro do grupo seguem intactos. Em muitos momentos, o Cansei – isso, Cansei, como diz seu público original, e não CSS como teimam em chamá-los os gringos – parece ainda ser apenas a banda que tocava o puteiro nos palquinhos do underground paulistano. E, mais, parece se esforçar para não deixar de sê-la. “A gente não pode esquecer de onde veio”, explica Lovefoxxx ,antes de “I Wanna Be Your J-Lo”, hit daquela época. Quase no final, Carol perde o pedal do bumbo em “Music is My Hot Hot Sex” e, por alguns instantes, só sobra o “velho Cansei” sobre o palco, mas nada que uma multidão bem disposta e uma ótima frase (“Ele é fodão, mas eu sei que eu sou também”) não resolvam. O símbolo da paz pintado no rosto da vocalista nem precisava estar lá. Ela é a dona do show, às vezes tão menina quanto as meninas que a endeusam da platéia, às vezes a deusa multicolorida que tais meninas insistem em enxergar. O set traz música nova (um surf-rap-new-wave), a esperada versão de “Pretend We’re Dead” (L7) e as toneladas de hits do primeiro disco. “Let’s Make Love and Listen do DFA” chega consagradora, finalizando o show. E os paulistanos podem ficar tranqüilos: o Cansei do mundo ainda é coisa nossa.


17 de jul. de 2007

três vezes gonzález

Fiz pra Rolling Stone. Saíram em maio (entrevista), junho (resenha do disco) e julho (resenha do show):

Ao longo dos últimos anos, a Suécia vem se afirmando como reduto de excelência dentro do cenário independente mundial. Nomes como The Knife, Jens Lekman e Peter, Bjorn and John ganham cada vez mais destaque na imprensa musical de todo o planeta, enquanto novas promessas – bandas como I’m From Barcelona e Loney, Dear – fazem a festa da região mais musical da blogosfera.

José González, 28, maior expoente desta safra, prefere, no entanto, não se vincular a esta movimentação. “A Suécia é um país pequeno, com cidades pequenas, então você acaba trombando outros músicos, mas não faço música com eles. Temos aqui um bom ambiente para se fazer música, mas não acredito que eu seja parte de nenhuma cena”, diz, de sua casa em Gotemburgo.

Filho de argentinos, González conta que cresceu escutando música latina e brasileira. “Comecei a tocar violão influenciado por Silvio Rodriguez e gente como Caetano Veloso, Chico Buarque e João Gilberto”. Aprendeu os primeiros acordes tirando canções dos Beatles e clássicos da bossa nova e, depois, dedicou-se ao violão clássico e teve bandas de rock.

“Acho que a mistura do aprendizado do violão clássico com a audição do indie rock americano me trouxe para onde estou hoje em dia”. Mais precisamente: Veneer, seu primeiro álbum, lançado na Europa em 2003, e dois anos depois nos EUA, levou-o ao sétimo lugar das paradas inglesas, foi disco de ouro na Suécia, teve uma das músicas como trilha de uma propaganda de televisores e outra embalando o episódio de encerramento da segunda temporada da série The O.C. Agora, o trabalho chega às lojas brasileiras, acompanhando alguns shows que o músico deve fazer no país no início de junho.

O sucesso de Veneer pegou González de surpresa, principalmente por se tratar de um disco totalmente gravado em casa, apenas com o auxílio de um computador e um par de microfones. “Minhas expectativas iniciais eram muito baixas. A maior parte das coisas que escuto não vendem muito, então achei que seria igual”, conta. “Gravei o disco na minha cozinha. É bem lo-fi”.

Para os shows brasileiros, os fãs podem esperar basicamente o que se escuta em seu primeiro álbum: “é um show de violão e voz”. Além das músicas de Veneer, Gonzáles deve mostrar algumas composições de seu próximo álbum, que deve manter as raízes lo-fi, mas longe da cozinha. “Agora tenho um escritório-estúdio que posso utilizar sem ter que pensar na louça que tenho que lavar enquanto gravo”.


José González
Veneer – três estrelas e meia

Folk como le gusta

A nova onda revivalista do folk revelou alguns dos nomes mais interessantes desta década, da complexidade épica pastoral de Joana Newson ao experimentalismo colaborativo do Sunburned Hand of the Man, só para citar duas extremidades opostas do eixo em que, lá no meio, reside o som mais ortodoxo praticado por González. Neste panorama, cabe ao sueco filho de argentinos posar como herdeiro natural da coroa de Nick Drake, mestre da vertente mais introspectiva e melancólica do gênero, principalmente pelas espirais quase mântricas de violões dedilhados e a atmosfera etérea que permeia este seu primeiro trabalho, lançado no Brasil com quatro anos de atraso. Há palmas em “Lovestain”, percussão em algumas outras canções e um trompete na faixa de encerramento, “Broken Arrow”, mas, fora isso, não espere aqui nada mais que voz e violão. Tudo devidamente gravado em casa, fato que dá ao disco um saudável aspecto lo-fi. “Remain” escancara a influência brasileira na música do cara – imagine se Devendra Banhart tivesse escolhido João Gilberto, e não Caetano Veloso, como ídolo brazuca -, enquanto o filé mignon do disquinho é “Heartbeats”, versão para um electro-pop arrasa-quarteirão dos conterrâneos The Knife, reduzido aqui a uma envolvente canção para ouvir a dois.


José González - três estrelas e meia
Sesc Vila Mariana – SP

A difícil arte de ser simples

Com som perfeito e iluminação adequada, o teatro do Sesc Vila Mariana devidamente lotado em seus mais de 600 assentos mostrou-se o lugar certo para receber a atmosfera intimista e a timidez simpática levadas ao palco pelo sueco José González. O clima se refletia na platéia, reverentemente silenciosa por toda a apresentação. Ao vivo, fica claro o truque do cara: a simplicidade encantadora das canções de Veneer – primeiro disco de González -, calcadas em repetições hipnóticas de fraseados no violão, esconde um músico que esbanja técnica e inventividade, trabalhando com rigidez nórdica em afinações variadas e explorando possibilidades percussivas do instrumento. E a voz ainda é boa, bem colocada, menos João Gilberto, mais Nick Drake. Aos poucos, algumas músicas novas são apresentadas, e parecem ainda melhores que as antigas. Mas a parte mais suculenta do show são as versões para músicas alheias, quatro ao todo. “Teardrop”, do Massive Atack, precedeu o bis, que trouxe mais três: “Hand on Your Heart” (Kylie Minogue), a melhor; o sucesso “Heartbeats”, recebido com entusiasmo; e, finalizando, “Love Will Tear Us Apart” (Joy Division), no momento da noite mais próximo a um show de rock. Um banquinho, um violão, um copo de vinho e um grande show: ah, se o “som do barzinho” fosse assim.

27 de jun. de 2007

rolling stone - fevereiro/07

Graforréia Xilarmônica - 3 estrelas
Ao Vivo


Instituição gaúcha em registro certeiro


Se hoje em dia o termo rock gaúcho virou definição de estilo musical, abraçado claramente por nomes locais – de Cachorro Grande a Bidê ou Balde – e até extrapolando as fronteiras do estado - ou alguém vai dizer que bandas como o Rock Rocket não fazem rock gaúcho? -, boa parte da culpa pode ser creditada à Graforréia Xilarmônica. Isso não quer dizer, entretanto, que muita gente tenha entendido a mistura chinela de jovem guarda, idiossincrasias regionais, elementos vanguardistas e rock dos anos 60 promovida pela banda em sua tortuosa carreira, que completa 20 anos em 2007. Para este Ao Vivo, gravado em 2005 em Porto Alegre, a dupla de produtores cariocas Kassin e Berna Ceppas optou, como convém, por um registro corretamente cru da apresentação. Não espere, portanto, execuções impecáveis, vocais límpidos, afinação e aquela precisão anticéptica dos discos ao vivo que vemos por aí. E isso só ajuda a reafirmar a força das composições da Graforréia, que aqui conta em duas músicas com Marcelo Birck, membro da formação original e co-autor de boa parte do repertório do grupo. Entre semi-hits de uma realidade paralela – bem mais divertida que a nossa, por sinal – e canções popularizadas por outros artistas ("Empregada" por Wander Wildner; "Nunca Diga" e "Eu" pelo Pato Fu), o disco aparece como lembrete do quanto uma banda como a Graforréia ainda pode soar extremamente necessária dentro do nosso cenário musical.

15 de mai. de 2007

Essa saiu na Rolling Stone

Klaxons (três estrelas)
Myths of the Near Future

O bom e velho pop

New rave, nu-rave, indie rave, rave rock, beleza. Aí você bota o play pra rolar. A bateria eletrônica entra num fade-in, após algum ruído. Chega bem marcada, quadradona. Baixão e teclados aparecem pra dar um clima. Entram os vocais, harmonizando, quase soft-rock. Boazona, essa “Two Receivers”. Mas, epa, espera aí, cadê a rave nisso tudo? Ah, tem umas sirenes na faixa dois, “Atlantis to Interzone”. Essa aí todo mundo conhece. Rockão dançante, frenético, mas de rave mesmo só as sirenes. E o álbum vai seguindo assim, meio esquizofrênico, uma música bem diferente da outra, cheio de idéias - quase todas bem legais. E as referências, claro, pode anotar: Bowie, Blur, Orange Juice (talvez via Franz Ferdinand), TV on the Radio, tudo bem costuradinho pelas mãos do produtor James Ford, do Simian Mobile Disco, outro egresso da tal “cena”. Resumindo: a história da new-rave, que, na real, começou como piada em uma entrevista dos caras e acabou servindo para a mídia empacotar toda uma cena está muito mais para os mares de roupas e bastões fluorescentes nas platéias e palcos do que para o som da(s) banda(s) em si. E esse Myths of the Near Future é um belo disco pop. Com algumas sirenes.