27 de mar de 2007

Indie de NY bomba mesmo sem major

Folha de São Paulo - 07/10/2005

Sem contrato com gravadora, Clap Your Hands Say Yeah vende mais de 20 mil CDs


Uma das bandas mais comentadas do cenário independente americano atual, o quinteto Clap Your Hands Say Yeah não tem gravadora e fez poucos shows fora de Nova York até agora. Ainda assim, já vendeu mais de 20 mil cópias de seu auto-intitulado álbum de estréia lançado em julho, muitas delas enviadas para sites de venda e lojas de discos descoladas por todo os EUA diretamente do apartamento que o grupo divide no bairro do Brooklyn.
A "maior banda sem contrato dos EUA", como vem sendo chamada pela imprensa local, tem sido assediada por gravadoras de todos os portes, das pequenas indies às gigantes majors. Prefere, no entanto, manter -ao menos por enquanto- o maior controle possível sobre seu trabalho.
Isso não a impediu de ter se associado recentemente à grande distribuidora de selos independentes ADA, ligada ao grupo Warner.
De Seattle, parada da primeira turnê da banda pelos EUA, Alec Ounsworth, vocalista e principal compositor do grupo, esforça-se para deixar claro: "Eu nunca conversei com ninguém da Warner. Precisávamos de ajuda na distribuição e a ADA pareceu uma escolha apropriada. Por acaso, eles são associados à Warner, mas o acordo não tem nada com a gravadora. É assim que eu entendo e é assim que deve ser entendido."
O contrato com a ADA não deixa de ser um exemplo do hype que se constrói em torno da banda. Pela primeira vez em anos, a distribuidora que trabalha com selos de porte e prestígio no meio independente, como Matador e Sub Pop, assinou um acordo de distribuição diretamente com uma banda. Para a Europa, a vencedora da disputa pelo passe do quinteto foi a Wichita, lar de gente como Bright Eyes e Yeah Yeah Yeahs no velho continente.
Ounsworth declara-se imune ao falatório. "A vida não mudou muito. Só temos andado por aí um pouco mais que o costume", brinca. Após o fim da tour, o Clap Your Hands Say Yeah tem shows marcados na Islândia, Inglaterra e Escócia. "Não esperávamos toda essa repercussão. Não acho que ninguém deva esperar nada. É melhor você saber o que quer, dar o melhor de si e então ver o que acontece. Não é muito diferente de uma corrida de cavalos."
Nesse páreo, o grupo não pode, porém, ser considerado exatamente um azarão. Seu sucesso evidencia a crescente força do site Pitchforkmedia.com, que, entusiasta do trabalho da banda, colocou-a no mapa do novo rock alternativo americano, com uma resenha favorável e algumas notas em sua seção de notícias. Foi o suficiente para que milhares de pessoas corressem atrás do CD e até David Bowie assistisse a um show. Referência máxima para nerds musicais de todo o mundo, o Pitchfork parece cada vez mais ser capaz de impulsionar novas carreiras ou destruir velhas reputações com uma simples resenha. Ounsworth prefere não se posicionar. "Não sei responder essa pergunta", diz o vocalista, quando questionado sobre o site.

Indie rock clássico
E quanto à música, que, no final das contas, é o que interessa? Ounsworth: "Nossa música é vermelho-alaranjada, com pitadas de amarelo e azul". Colocando em termos menos sinestésicos, o Clap Your Hands Say Yeah faz indie rock clássico, como se fazia muito bem nos anos 90. A psicodelia revistada do Neutral Milk Hotel e Olívia Tremor Control pode ser citada como referência.
A banda pode ser vista também como uma alternativa um pouco menos pomposa à grandiosidade de novas bandas como Arcade Fire e Wolf Parade. Ecos de new wave, pós-punk e até krautrock também podem ser encontrados no som do grupo. Mas é a voz de Ounsworth, descrita por muitos como a de David Byrne em início de carreira, que se destaca como elemento fundamental nas composições do CD. "Acho que ela complementa o som", diz. "As comparações [com Byrne] não me incomodam. Mas isso não quer dizer que eu as entenda."

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