Bom, o Lúcio levantou uma discussão sobre a qual vale dar meus 50 centavos, mesmo porque ele cita o "fim da Peligro" no meio dela. Algumas coisas precisam ser ditas.
1. Não existe nem nunca existiu indie no Brasil. Indie não é usar all star e gostar do Oasis. Indie não é frequentar a Funhouse ou se emocionar quando o Guab toca Radiohead. Isso é o estereotipo de indie que se criou no Brasil. Indie não é nem nunca foi um gênero musical, caralho. Indie rock é um gênero musical, assim como o indie pop. Indie é um modo de encarar a música e seu mercado. Tô num lugar, Montreal, onde realmente existe uma comunidade independente. No Brasil, só existe cena e os scenesters. O que é algo bem diferente. Aqui indie não é tribo-matéria-do-Folhateen. Indie é quem de alguma maneira se envolve com música ou arte independente em geral, seja criando, divulgando, marcando shows, escrevendo sobre, discotecando, fundando uma gravadora, abrindo um clube, fazendo pôsteres, assistindo aos shows ou o que seja, buscando uma maneira de fazer suas coisas fora do mercado corporativo. Não existe morte ou renascimento do indie no Brasil porque simplesmente ele nunca existiu. Indie brasileiro é tão ridículo quanto skinhead brasileiro. Conceitos deturpados pela falta de educação e informação da nossa classe média.
2. Aqui o indie é fã de música, não de gêneros. Tô de saco cheio de neguinho que se acha ultra-radical ficar pedindo a porra da bandinha inglesa do momento ou a mesma do MGMT toda noite. O que tem de radical nisso? E da Inglaterra só tem saído merda ultimamente - isso é outro papo, mas foda-se. Aqui, a mesma pessoa que se empolga com o pop dançante aprovado pela Pitchfork do Lemonade, assiste, na mesma noite, o DJ/Rupture misturar cumbia e dubstep. Sim, eles estão fazendo shows juntos. No Brasil, o indie é tão burro, mal-informado e limitado quanto o fã de axé ou de música sertaneja. Com um agravante: a arrogância.
3. Tive a honra de participar de um debate ao lado de Don Wilkie, um dos fundadores da Constellation Records, tremenda fonte de inspiração em tudo o que faço relacionado à música. Na tarde anterior, fui à sede da gravadora e fiquei chocado com o que eles conseguiram. Isso, cobrando preços honestos, nunca utilizando trabalho "escraviário", sempre respeitando seus consumidores, nunca fazendo concessões e sempre norteando seus lançamentos pela qualidade tanto artística - o que é subjetivo - quanto gráfica e dos materias utilizados em seus produtos. No debate, falávamos sobre comunidade independente - eu eu disse que em São Paulo não havia uma -, quando ele citou o exemplo do Godspeed You Black Emperor!, a banda que mais vendeu dentro do selo e que investiu tudo o que ganhou de volta na comunidade. Ajudaram a montar a Constellation, montaram um estúdio - o hoje famoso Hotel2Tango -, abriram um café com espaço pra shows e uma casa de shows de médio porte. Resultado: colocaram Montreal no mapa da música que importa no mundo. Se hoje a cidade exporta Arcade Fire e A-trak, Islands e Malajube, boa parte da culpa é deles, que criaram um ambiente para que a música boa florescece.
4. Fui no show do
Think About Life. Você não deve conhecer a banda, embora isso poderia te fazer bem. Era longe, tava frio, um monte de bandas mais conhecidas tocavam na mesma noite. E o lugar tava lotado. Lotado de moleques surtando, fazendo stage dive, invadindo o palco. O indies velhos também tavam lá. Por que? A resposta, pra quem mora aqui, parecia óbvia: "Eles são daqui". Claro, o público local apoia as bandas locais. Tá certo que o show dos caras ajuda. Puta show, por sinal.
5. A Peligro, ao contrário do que diz o Lúcio, nunca foi uma festa indie no sentido brasileiro do termo. Era uma festa de bandas e discotecagem. Em termos de banda, recebemos do tecnobrega Tecno Show e o funk da Deize Tigrona aos inclassificáveis experimentadores como Lavajato e Índios Eletrônicos, além de muito hip hop e música eletrônica. Isso, fora a Mallu Magalhães. Claro que tinha muito rock entre as bandas, mas era só mais um elemento. Assim como nos meus sets. Sabe quanto mudei meu set da Peligro pra Explode? Nada. No mais, quero bem longe de mim o público que ainda sai na noite pra ouvir a mesma do Strokes. Quero pra mim a molecada que saca que Buju Banton é tão bom quanto Dirty Projectors, e que se pode dançar com Phoenix e Vampire Weekend, mas também com Cool Kids, Very Best e as coisas da ZZK. E eles tão aparecendo no Neu toda sexta e se divertindo muito. E gritando e se jogando no chão. Nada me deixa mais feliz que isso.
6. Bom, dito tudo isso, quero ressaltar que gosto muito do Lúcio e sempre fui defensor do papel dele como jornalista pop. Acho que ele cumpre uma função necessária. E é gente boa. Esse lance da coluna dele foi só um estopim pra eu botar aqui algumas coisas que eu penso faz tempo.
7. Tô escrevendo isso no vácuo de uma semana de sonho em Montreal, vendo shows incríveis, conhecendo ídolos, vendo o Holger representar e ganhar muitos fãs por aqui, e tocando no encerramento do Pop Montreal numa noite que vai ser difícil de esquecer - o público invadiu o palco e ficou dançando em cima, não ia embora nem com as luzes do clube acesas; nunca na minha vida recebi tanto elogios por um set; e saí de lá aplaudido pela plateia. Sem tocar aquela do MGMT.
ps gosto muito do MGMT. Do disco, pelo menos.